Dizem que a maior mentira que pode ser dita é quando se
afirma que nunca mentiu.
O TOMATE, O SAL, A ZUEIRA E O FAZ DE CONTA QUE EU SOU MACHO
Chunck sempre foi um cara organizado no trabalho, mas tinha
um pequeno vício. Todos os dias tinha de comer o seu tomatezinho. Era um
ritual, todos os dias as nove da manhã ele parava o que estivesse fazendo e ia
lá partir seu tomate em quatro pedaços e os cobriam com uma grande porção de
sal. Só que esse sal caia em sua mesinha, que era de metal, uma espécie de
bancada e com o tempo foi ficando enferrujada.
Um dia o patrão passou por seu setor e viu a mesa toda
alaranjada e foi lá dar uma olhada. Viu que era ferrugem e logo em seguida
chamou Nervos e começou a falar:
‘Está vendo isso
Nervos?’
‘O que Caverão?’
‘Po, todo esse
ferrugem, o que o Chunck está fazendo? Está lavando a mesa com água?’
‘Ah, não sei não Caveras, deve ter chovido aí, vai saber...’
‘Chuva nada, são aqueles
tomates que ele come, enche de sal, pensa que eu não vejo, e o pior é que está
indo no médico por causa da pressão, pô, quer se matar tudo bem, mas não
estrague a bancada, caramba, parece que não sei...’
‘É, aí é foda...’
Caverão balança a cabeça em sinal de negativo e vai de volta
a sua sala, Chunck acabara de sair do banheiro e viu de longe o finalzinho da
conversa entre patrão e funcionário.
Sem perder tempo foi até Nervos perguntar o que o patrão
fazia ali:
‘E aí Nervos, o que
aquele sem vergonha estava fazendo aqui?’
‘Nada não, só disse que sua bancadinha está toda enferrujada
por causa do sal que você coloca nos tomates.’
‘Esse cara ta louco?
Eu nunca comi tomate com sal aqui nesta firma, ele bebe, enche a cara, come um
monte de besteiras e vem aqui falar besteira. Esse cara vai se ver comigo.’
‘Mas Chunck, você come tomate com sal, hoje mesmo me deu um
pedaço.’
‘Você é outro
pilantra, eu nunca comi sal neste lugar, eu nem como, tenho problema de
pressão, não posso comer essas coisas.’
‘Desculpa Chunck, eu me enganei, vai ver eu trouxe o tomate
e o sal, e, fui eu também que enferrujei seu esquema aí. Desculpa cara,
desculpa mesmo...’
E revoltado com a mentira, Nervos volta a seus afazeres
enquanto Chunck joga todo o seu estoque de sal no lixo.
Na hora do almoço, Chunck, ainda querendo se passar por
santo, diz:
‘Não sei porque tenho
problemas de pressão, coração, eu me cuido, não como besteiras...’
E dizendo essas coisas ele abre sua estufada marmita
recheada com uma servida feijoada. Todos fingem que nada de estranho acontece,
mas depois que ele saiu da cozinha a zueira foi geral.
Enquanto zuam, em outro departamento da empresa Chunck sente
dores no peito, quem percebe é o Na Pegada, que logo vai avisar o Caverão de
que o colega está passando mal.
O patrão prontamente vai ver o que está havendo com o homem,
Chunck diz que está tudo bem, que um repouso é suficiente. Caverão balança a
cabeça e ao passar por Lexman, também dá sua zuadinha:
‘Aí, se ele ficar
pior, pega os caras aí e joga ele lá na rua, pois se morrer não vai dar
problema pra firma. Isso é pra ver se ele para de comer sal.’
Lexman cai na gargalhada e espalha pra todo mundo.
Já recuperado, Chunck fica sabendo do ocorrido. Começa a se
tremer e fica com o rosto avermelhado que denuncia sua raiva. Sua ira está nas
alturas e tal como um ser irracional, começa a esbravejar:
‘Deixa esse Caverão,
esse pilantra, vagabundo, fica brincando com doença, eu vou lá falar um monte
pra ele. Po, pode isso, o cara falar pra me jogar pra morrer na rua? Ele que
vai morrer, o mundo dá voltas, eu vou... eu vou falar um monte pra esse filho
da mãe...’
‘Você vai mesmo, Chunck? Deixa quieto, o cara só estava
brincando.’ – diz Lexman.
‘Eu vou lá, ele vai
aprender que não se brinca com essas coisas. Olha cara, eu vou até pedir a
conta de tão nervoso que eu estou, olha só.’
Chunck mostra sua mão tremendo e vai ao escritório tirar
satisfação com o dono da empresa.
Lexman já diz pra Na Pegada ficar de olho, e assim que
Chunck adentra o escritório, o safado colega de trabalho se coloca abaixo da
janela e ouve a conversa.
Nem dois minutos se passam e Na Pegada levanta, olha pra
dentro do escritório, se vira e vai falar com
Lexman, não sem antes chamar
Nervos e diz:
‘Caras, eu não vou dizer nada, apenas vão lá na janela,
disfarçados e vejam o que está rolando.’
Lexman e Nervos vão, e não acreditam no que vêem. Chunck
está dando risadas pro Caverão e ainda diz:
‘Hahaha Caverão, você
é demais, zoa com tudo mesmo, mas pode ficar tranqüilo que eu to legal.’
‘Tá bom, agora, volta
ao trabalho que seu serviço atrasou por causa desse seu problema aí.
‘Tá certo, hahah, que
você continue assim, sempre brincalhão, é bom pra descontrair o ambiente. Deus te
abençoe.’
Sorridente, Chunck sai do escritório e leva um susto ao dar
de cara com Nervos e Lexman que dizem:
‘Papelão hein Chunck, tem vergonha na cara não?’
Chunck esconde o sorriso, baixa a cabeça, pensa por alguns
segundos, volta a olhar pros dois e diz:
‘Fazer o que, né?’