Fim de expediente, aquela sensação de dever cumprido que
toma conta de todos os que exercem uma função na sociedade.
No setor ainda, antes de irem embora, estavam Magrinho, que
era o encarregado, Chunck e seu fiel parceiro Octo, e mais afastado e como
sempre falando bobeiras inimagináveis estavam Nervos e Lexman.
Os dois últimos se aproximam do restante do grupo, estavam
falando das coisas absurdas que aconteciam no outro emprego deles, sim, esses
dois malucos já haviam trabalhado juntos em outra empresa.
O papo era sobre um tal de Zé Pedreiro, que dizia que uma
vez fazia a fachada de um prédio e caiu do terceiro andar, ia de cabeça ao
chão, quando conseguiu fazer um movimento e girar seu corpo e caiu feito gato, levantou e saiu andando.
“ Pô Lexman, esse Zé Pedreiro mentia muito, né?” – disse Nervos.
“Hahahaha... e o pior é que o homem nem vermelho ficava,
falava sério, com convicção.” – disse Lexman.
Para não ficar para trás no assunto, Magrinho, com todos os
seus trinta e cinco anos de trabalho, tinha muitas histórias a contar, e
resolveu entrar no assunto da maneira mais arrogante possível:
‘Eu não admito que me
chamem de mentiroso, pode ser quem for, uma vez meu filho, o Briuga me chamou
desse nome horrível e tomou um senhor tapa na cara, no meio da rua, de frente
pra todos os seus amigos, eu não admito mesmo.’
“Nossa, seu filho deve ter ficado desnorteado por um tempo,
né? Mas porque ele te chamou de mentiroso?” – perguntou Nervos, fazendo cara de
interessado e indignado por ter que ouvir seu chefe dizer que o próprio filho o
chamou de mentiroso.
Percebendo que a pergunta de séria não tinha nada, Lexman, que
como Nervos era um mestre na arte da ironia e sarcasmo dentro de um ambiente de
trabalho, já emendou:
“Magrinho, mas pra ele dizer isso você deve ter dito algo
muito absurdo, ou, que ele como criança, não deve ter entendido, não é?”
Chunck e Octo como que percebendo que os dois estavam
tirando uma com o chefe, riam disfarçadamente.
E Magrinho se pôs a falar:
‘Não foi nada
absurdo, foi uma coisa que aconteceu na Átrasdocopo... peço licença há quem
estiver lendo, para explicar que todas, ou pelo menos nove entre dez histórias que
Magrinho conta aconteceram na Átrasdocopo, empresa onde ele trabalhou por anos e pelo
visto, não aprendeu quase nada, mas, voltando a fala do intrépido comandante...
um acidente de trabalho com um rapaz que
trabalhava lá.”
“Ah, conta aí Magrinho, não que eu ache graça em acidentes,
mas é sempre bom ouvir relatos, assim ficamos mais espertos no dia a dia, né?” –
uma cara de pau sem tamanho deste tal de Nervos.
“É conta aí, ninguém mesmo está com pressa pra ir casa e
outra, todo mundo aqui quer ouvir essa passagem de sua vida, não é Chunck? Não
é Octo?”- e Lexman coloca mais lenha na fogueira.
Os outros dois apenas acenam com a cabeça que sim e o chefe,
não resistindo aos descarados pedidos começou:
‘Então, foi assim, lá
trabalhava uma cara chamado Alfredo, era um sujeito bacana e tudo, mexia com
produtos químicos.
Um dia, ninguém sabe ao certo o que ele fez, dizem que estava mexendo com um
tipo resina, não sei o que era, e não usava luvas, e acabou que esta resina
misturou com um outro produto que ao entrar em contato com sua pele acabou por
queima-la, na verdade, foi a palma da mão, das duas.’
“Que cara doente!”- espantou-se Chunck.
“Fica quieto Chunck, deixe o bom homem continuar.”- e Lexman
passou novamente a palavra para Magrinho.
‘Bom, ele foi
socorrido e tal, estava chorando tamanha era a dor. No hospital, ele teve de
passar por uma cirurgia e colocar enxerto nas mãos. Tiraram pele das nádegas.’
Nesse momento, Nervos deixou escapar um riso mais alto, mas,
percebendo a gafe rapidamente se calou.
‘O Alfredo ficou três
meses afastado, se recuperando e depois deste período, já recuperado pode
voltar ao trabalho. As primeiras semanas foram normais, até que um certo dia
ele foi trabalhar de luvas, o pessoal achou estranho, pois era verão.
Mas ninguém disse nada, passou todo o horário de trabalho e na hora de ir
embora, estavam uns dez caras juntos, igual a nós aqui, e um deles perguntou o
porque das luvas, já que fazia um calor infernal. Alfedo deu um sorriso e disse
que estava querendo lançar moda, o sorriso foi irônico, pois logo em seguida mandou o cara para a mulher que lhe havia dado a luz.
Um outro sem vergonha, percebendo a irritação foi de surpresa e puxou as luvas do
homem, e, na verdade, quem foi pego de surpresa mesmo foram os caras lá
reunidos, havia crescido pelo nas palmas
da mão do Alfredo.’
Nervos não resistiu e caiu na gargalhada, e os outros foram
na mesma onda, Magrinho continuava sério e prosseguiu:
‘Vocês tinham que
ver, o Alfredo ficou roxo de tanta raiva e vergonha e começou a discutir com os
caras. Um perguntou se durante os três meses afastados ele havia se masturbado
muito, o que o irritou mais ainda e o fez pedir respeito, mas não teve jeito, deste dia em diante ele
ficou conhecido como Zé Bronha. Depois ele fez umas outras cirurgias e solucionou
o problema, mas o apelido ficou até hoje’
“O Magrinho, isso é verdade mesmo? –perguntou Octo enquanto
o outros riam e Nervos, a beira de um enfarte teve de ir tomar uma água.
“Desculpa cara, mas, é compreensível seu filho te chamar de
mentiroso. Puta mentira da porra, hahahahahaha...- tirou sarro Lexman.
Nervos não parava de rir, rir muito alto, Chunck, Lexman e
Octo também tiravam sarro e Magrinho controlou-se até onde pode, mas, não foi
por muito tempo:
‘Seus merdas, vocês
são como meu filho, todos uns ignorantes. Eu não sou mentiroso, porra, EU NÂO
SOU MENTIROSO, EU NÂO MINTO, SEUS... SEUS... SEUS PALHAÇOS...’