terça-feira, 15 de maio de 2012

AS MENTIRAS DE CHUNCK - Parte Um



Dizem que a maior mentira que pode ser dita é quando se afirma que nunca mentiu.

O TOMATE, O SAL, A ZUEIRA E O FAZ DE CONTA QUE EU SOU MACHO

Chunck sempre foi um cara organizado no trabalho, mas tinha um pequeno vício. Todos os dias tinha de comer o seu tomatezinho. Era um ritual, todos os dias as nove da manhã ele parava o que estivesse fazendo e ia lá partir seu tomate em quatro pedaços e os cobriam com uma grande porção de sal. Só que esse sal caia em sua mesinha, que era de metal, uma espécie de bancada e com o tempo foi ficando enferrujada.
Um dia o patrão passou por seu setor e viu a mesa toda alaranjada e foi lá dar uma olhada. Viu que era ferrugem e logo em seguida chamou Nervos e começou a falar:

‘Está vendo isso Nervos?’

‘O que Caverão?’

‘Po, todo esse ferrugem, o que o Chunck está fazendo? Está lavando a mesa com água?’

‘Ah, não sei não Caveras, deve ter chovido aí, vai saber...’

‘Chuva nada, são aqueles tomates que ele come, enche de sal, pensa que eu não vejo, e o pior é que está indo no médico por causa da pressão, pô, quer se matar tudo bem, mas não estrague a bancada, caramba, parece que não sei...’

‘É, aí é foda...’

Caverão balança a cabeça em sinal de negativo e vai de volta a sua sala, Chunck acabara de sair do banheiro e viu de longe o finalzinho da conversa entre patrão e funcionário.
Sem perder tempo foi até Nervos perguntar o que o patrão fazia ali:

‘E aí Nervos, o que aquele sem vergonha estava fazendo aqui?’

‘Nada não, só disse que sua bancadinha está toda enferrujada por causa do sal que você coloca nos tomates.’

‘Esse cara ta louco? Eu nunca comi tomate com sal aqui nesta firma, ele bebe, enche a cara, come um monte de besteiras e vem aqui falar besteira. Esse cara vai se ver comigo.’

‘Mas Chunck, você come tomate com sal, hoje mesmo me deu um pedaço.’

‘Você é outro pilantra, eu nunca comi sal neste lugar, eu nem como, tenho problema de pressão, não posso comer essas coisas.’

‘Desculpa Chunck, eu me enganei, vai ver eu trouxe o tomate e o sal, e, fui eu também que enferrujei seu esquema aí. Desculpa cara, desculpa mesmo...’

E revoltado com a mentira, Nervos volta a seus afazeres enquanto Chunck joga todo o seu estoque de sal no lixo.

Na hora do almoço, Chunck, ainda querendo se passar por santo, diz:

‘Não sei porque tenho problemas de pressão, coração, eu me cuido, não como besteiras...’

E dizendo essas coisas ele abre sua estufada marmita recheada com uma servida feijoada. Todos fingem que nada de estranho acontece, mas depois que ele saiu da cozinha a zueira foi geral.

Enquanto zuam, em outro departamento da empresa Chunck sente dores no peito, quem percebe é o Na Pegada, que logo vai avisar o Caverão de que o colega está passando mal.

O patrão prontamente vai ver o que está havendo com o homem, Chunck diz que está tudo bem, que um repouso é suficiente. Caverão balança a cabeça e ao passar por Lexman, também dá sua zuadinha:

‘Aí, se ele ficar pior, pega os caras aí e joga ele lá na rua, pois se morrer não vai dar problema pra firma. Isso é pra ver se ele para de comer sal.’

Lexman cai na gargalhada e espalha pra todo mundo.

Já recuperado, Chunck fica sabendo do ocorrido. Começa a se tremer e fica com o rosto avermelhado que denuncia sua raiva. Sua ira está nas alturas e tal como um ser irracional, começa a esbravejar:

‘Deixa esse Caverão, esse pilantra, vagabundo, fica brincando com doença, eu vou lá falar um monte pra ele. Po, pode isso, o cara falar pra me jogar pra morrer na rua? Ele que vai morrer, o mundo dá voltas, eu vou... eu vou falar um monte pra esse filho da mãe...’

‘Você vai mesmo, Chunck? Deixa quieto, o cara só estava brincando.’ – diz Lexman.

‘Eu vou lá, ele vai aprender que não se brinca com essas coisas. Olha cara, eu vou até pedir a conta de tão nervoso que eu estou, olha só.’

Chunck mostra sua mão tremendo e vai ao escritório tirar satisfação com o dono da empresa.

Lexman já diz pra Na Pegada ficar de olho, e assim que Chunck adentra o escritório, o safado colega de trabalho se coloca abaixo da janela e ouve a conversa.

Nem dois minutos se passam e Na Pegada levanta, olha pra dentro do escritório, se vira e vai falar com 
Lexman, não sem antes chamar Nervos e diz:

‘Caras, eu não vou dizer nada, apenas vão lá na janela, disfarçados e vejam o que está rolando.’
Lexman e Nervos vão, e não acreditam no que vêem. Chunck está dando risadas pro Caverão e ainda diz:

‘Hahaha Caverão, você é demais, zoa com tudo mesmo, mas pode ficar tranqüilo que eu to legal.’

‘Tá bom, agora, volta ao trabalho que seu serviço atrasou por causa desse seu problema aí.

‘Tá certo, hahah, que você continue assim, sempre brincalhão, é bom pra descontrair o ambiente. Deus te abençoe.’

Sorridente, Chunck sai do escritório e leva um susto ao dar de cara com Nervos e Lexman que dizem:

‘Papelão hein Chunck, tem vergonha na cara não?’

Chunck esconde o sorriso, baixa a cabeça, pensa por alguns segundos, volta a olhar pros dois e diz:

‘Fazer o que, né?’


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